domingo, 16 de março de 2014

DROPS DE LETRAS

  "...(...) 
Grande cartada essa do coronel em confiar a chave do tesouro àquele pequeno homem que conhecera numa estação de trem em Recife e que havia fugido com dezessete anos, escondido no porão de um navio de imigrantes japoneses que fundeara na península de sua pátria. No Brasil, acabou se separando dos japoneses que desembarcaram no sudeste e praticamente se deixaram escravizar nas fazendas de café. Sem dinheiro, o rapaz perambulou vários dias pelo cais de Santos embrulhado numa japona de couro de cabra e dormindo nas docas para se proteger da neblina. Finalmente conseguiu embarcar, mas só depois que arranjou ocupação de tratador de animais de um zoológico clandestino que vinha num navio de Buenos Aires para o Recife. Jamais teria aceitado o emprego se tivesse tomado conhecimento de que estava ocupando a vaga deixada pelo homem que as onças devoraram quando navegavam as águas do Rio da Prata ...(...)"
            
               Aldo Lopes de Araujo- "A Bailarina e o Coronel" -inedito, a ser lancado em maio, pela Editora Bagaco
-----------------------------------------------------------------------------

 "(...)...Como de costume, em manhãs estivais as donas-de-casa soltariam seu plantel de aves por algumas horas para que caçassem larvas e bicassem sementes de melões-de-São-Caetano, e que ficariam, entre os intervalos, catando pelo chão as melhores pedrinhas para reforçar o trabalho digestivo de suas moelas. 
         Um galo caminharia imponente e algo pensativo entre elas, erguendo hesitante uma das patas e demorando a repô-la no chão, mas arrancaria de repente numa corrida desajeitada e logo teria um Louva-a-Deus entre o bico. 
       Possivelmente, uma das galinhas iria ciscar embaixo de algum cercado de avelós e poderia ocorrer de ali localizar uma suculenta minhoca, mas teria que ser rápida com isso, se quisesse garantir a refeição evitando disputa acirrada com as demais...(...)"

                                                                                    A Lacet -inedito

-------------------------------------------------------------------------

  LAGOA
                                        
                                    Massimo  Biondi

Pele suada pinga gotas de mel
Colados, juntos os púbis, botãozinho gemendo Entrei devagar, doce, entre lábios inchados Conquistando o caminho aos poucos.
Abraço apertado de mucosas já pré gostando a êxtase, Parei, parou
Apenas as veias cheias de vida palpitam
marcam o tempo
A cada pulsação um choque elétrico de prazer mais intenso Mentes vazias assistindo mudas ao jogo
Nós dentro de nos
Alma à alma, quem é em quem?
Corpos se contraindo na tentativa inútil de adiantar o momento mágico... Nada agora pode mais parar a explosão
Perdidos
Liquidificados um no outro
Almas moles surfando as ondas na ida e volta delas
Longamente, até acalmar-se numa lagoa de ambrósia.

-----------------------------------------------------------------------------------

  
"(...)  O vento que assobiava em seus ouvidos era o mesmo que fustigava o maciço de Teixeira, de onde o pico do Jabre emergia como se quisesse escorar o céu. Heliodoro jamais imaginou tocar-lhe as encostas a ponto de colher lírios naquele monastério de pedras. Em suas crises de lua, muitas vezes subiu a ladeira da Lacraia para desimpedir as vistas e os vexames da cabeça. Após as trovoadas, quando as chuvas apagam a fumaceira das brocas, ele via o alinhavo de pontos altos e baixos quase imperceptíveis na linha do horizonte, este arame velho da Providência Divina que jamais careceu de esticador. Na sua imaginação incendiada, o pico do Jabre é o sítio onde os gigantes do tempo antigo começaram a construir uma torre com o propósito de alcançar o céu, mas por motivos desconhecidos tiveram de abandonar a construção. A prova disso é a abundância de material depositado em toda a extensão da Serra de Teixeira, pedras atiradas nas encostas de terra e cascalho, o que sobrou da erosão, das voçorocas antediluvianas. A impressão que se tem é que os gigantes deixaram o material ao pé da obra, esperando voltar depois para continuar a torre e chegar enfim aonde pretendiam chegar. Ao que tudo indica vão tocar a construção, e dessa vez não precisarão transportar tabuleiros de Emas e Malta, raspar as serras de Santa Luzia, muito menos arrancar os serrotes de granito das Espinharas. (...)" 

                          Aldo Lopes de Araujo - "A Bailarina e o Coronel", Romance, a ser lancado em maio desse ano, pela Editora Bagaco 

---------------------------------------------------------------------------------

"(...) Já o sol invasivo a lamber-lhe os sapatos, os bicos evanescendo-se na luz, a seguir pisando na calçada e fugindo daquele alçapão de sombra ardilosa em que viera cair, talvez no único momento concebido até então em sua vida para que nada daquilo tivesse menor chance de fazer sentido, mas avançando para ganhar aquele mundo gratuito de luz dura, calor e revérbero à frente, quando ela então se virou de lado, para lhe dar a passagem, fitando-o, porém, nos olhos, vendo-os como que cegados por vidro, sem cumprimenta-la, atravessando depois a rua para subir no canteiro, e ela, Ondina, idade de ser sua mãe, punhos quebrados nos quadris, dedos das mãos estirados por força, vendo-o agora pelas costas, olhando alternadamente para ele e para o interior de onde saíra, meio que assustada, “Mas que bicho o mordeu"". (...)”.

                                         A. Lacet -inedito
---------------------------------------------------------------------------------




 "(...) Algum tempo depois, meu amigo Nazareno, que aos 

domingos aparecia lá por casa, a viu na Madalena, trabalhando  no 

açougue do novo marido, tal e qual Jorge, feio e bruto. Em outro 

encontro, no ponto do ônibus, disse-lhe que vinha conformada com 

a vida, amor mesmo ficou para trás, muito longe em Barretos, com 

um peão de rodeio. Êh Aline! — exclamou, aparentando desânimo. 

Na época adoeceu de paixão, chegou a ler A Verdadeira Cruz de 

Caravaca, procurando entre os remédios para vários males um que 

curasse os exageros do amor; os versinhos que invocavam anjos na 

língua do Congo, contudo, não lhe trouxeram a paz de um amor 

tranquilo. Da vida atual queixou-se das vezes que o marido lhe 

batia, geralmente quando a fiscalização dava as caras, multava o 

açougue e abria um processo. A última vez — confidenciou — 

apanhou dentro do próprio açougue, e por um triz ele não a 

dependurou de cabeça para baixo no gancho dos porcos, depois de 

rasgar sua roupa. Queria deixá-la pelada no frigorífico, sendo salva 

pelos rogos e a jura de nunca mais se intrometer nos negócios do 

marido. (...)"  


                                                    Demétrio Diniz- "Aline" - conto inédito

------------------------------------------------------------------------------------------------------------
... a presença de todos se misturava aos burilados e ornamentados caixões estilo rococó, folheados em imbuia e festoados com folhas de acanto. E ninguém, nenhum dos presentes, parecia perceber a necrológica estética em exposição. Apenas eu, enquanto passava, observava a implacável e indiferente susceptibilidade de coisas: flores, cores, dores e nomes; sensações imprecisas de formas passageiras, incólumes registros da alma. Instantes depois, entrei no cemitério.(...)"
                                   David Barbosa- conto inédito
------------------------------------------------------------------------------------------------------------

"...Zonzo de raiva e uísque o diácono não vê o menino franzino, quase imperceptível na rua mal iluminada. Toma um susto quando um objeto voa por cima do carro como um morcego grande, e suja de sangue o para-brisa. Pareceu mesmo um voo de morcego, rasante de cima para baixo, o som fofo de um invertebrado ao se esborrachar no chão, uma plastada de pele e sangue na pista. O cantor e diácono pisa fundo no acelerador. Vai para os lados de Nova Parnamirim, zanza pelo bairro mais de uma hora, até que por fim se acalma. Freia o carro, põe outro tablete de goma na boca, e pergunta à mulher dos dentes para fora o que desde o início da noite queria perguntar: Onde é mesmo que vamos romper o ano?"
  
            Demétrio Diniz -inédito ( trecho do conto "Onde é mesmo que vamos romper o ano?")

------------------------------------------------------------------------------------------------------------

























         















quinta-feira, 5 de setembro de 2013

2 fotos



                                                O artista no ateliê pintando "The Bismark's family"




                                                     "Hombre y su tigre" 70x60cm, o/s/t

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------


      

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Visualizando algumas etapas da pintura "Santa Ceia"


                                                     "Santa Ceia", 160x140cm, o/s/t