sábado, 7 de junho de 2014

DROPS DE LETRAS






"A mesma tendência para o esquecimento pairando sobre a existência daquele que se auto proclamara, com todo seu arcaísmo, catalisador de um tipo de acontecimento infausto cuja maior singularidade residia em recair apenas sobre sua pessoa, não esquecendo ele, no entanto, de abrir uma possibilidade em conjunto para Waldemar Candu, que era de outra extirpe, mas com o nome injustamente pendurado numa frase com esse estranho poder de socializar o prejuízo entre ambos, e através da qual o sempre citado Waldemar ficava intimado a pegar o seu quinhão de infortúnio no primeiro azar de quem a dissesse" 

Alberto Lacet   -     Inédito  - Romance-   (post em 23 /07/14) 
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"Ela e o soldado Vidal jogavam porrinha na única mesa do bar, desocupando-a quando chegava algum freguês. Ficava a um canto, recuada e silenciosa, ouvindo estórias de bêbado. Francelino Expedicionário, depois de algumas cervejas, trazia sempre de volta a Segunda Guerra e a tomada de Monte Castelo. Falava sobre o tempo em que distribuía chocolate às italianas e chicletes à gurizada faminta que entupia a porta dos cassinos : Here, shorty, here, relembrava em inglês, estalando os dedos.  No bar Glória também aparecia João Mão de Finado, a cada dose de cachaça repetindo o refrão que influenciou toda uma geração de estudantes… Beber e morrer enquanto se é novo e o cadáver é bonito, Embriagado, declamava os versos ufanistas e fora de moda do poeta Sebastião Lira, que ainda moço voltara do Rio de Janeiro para morrer de tuberculose na sua terra."


Demétrio Diniz  -   "Tia Alzira"  - Conto       (post em 20/7/14)

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"Os pobres do Evangelho não são tão pobres quanto se pensa. É só ler os livros dos apóstolos para saber dos peixes, do pão, do vinho rude feito de uvas que a região seca da Judéia e a região rica da Galiléia produziam junto com as tâmaras, figos, azeitonas, lentilhas, grãos cultivados pelas populações sedentárias da larga Palestina de Amorreus, Filisteus e outros povos esquecidos do livro que Lui leu e me deu. De imediato, eu não li, não tinha vontade de ler nada, era uma época de desorientação, vagabundagem e o medo do que podia acontecer se nós, os "dispersos", caíssemos na mão das tropas. As matas do "desamparo" eram as matas agora vigiadas por helicópteros voando sobre as aldeias dos pobres - sempre esquecidos."


Fernando Monteiro - "O Livro de Corintha" - Romance vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura      (Post em 16/7/14).Literatura
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"O sol das primeiras horas chupou o orvalho das lonas do circo e foi visto arrastando a sombra do padre Rabelo a uma ave-maria e meia de distância da igreja. Livramento protelou a saída do vigário, a começar pela arrumação das hóstias numa mochila. Depois ela foi buscar a moringa de latão e pingo a pingo com toda paciência do mundo tirou da ânfora grande o azeite destinado à lâmpada do Santíssimo. Em seguida, enfiou-se pela cozinha e só deu o ar da graça quando fez um chá de ibisco, santo remédio para os atropelos da memória''


Aldo Lopes de Araujo  - "O Coronel e a Bailarina", Romance a ser lançado em breve                                                        (post. em 13/7/14- 11:18)






"Num primeiro momento pensou-se, e não tinha como ser diferente, que tivessem elas mesmas corrompido o ambiente das salas, agrupando-se daquele jeito dentro das casinhas conjugadas umas às outras. Mas o que podiam esperar, além de provocar à si canseira de pulmões, transudares diversos, incontinência de gases nefandos? brincadeira como fosse, o fato é que tinham sido atraídas feito besouros para algum aparelho de televisão num canto daquela sala, para jogo da Copa do Mundo. O pai havia dito, Fuja dessa gente, matam e morrem por um jogo de bola, mas tinha que saber, e por isso foi parando o carro. Ei, menino."



     Alberto Lacet   -     Inédito  - Romance-   (post em 10/07/14) 

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"Tomás Alonso, de chapéu, camisa de mangas compridas e abotoada até o colarinho, conta sorrindo que peregrinou por Macaíba, Extremoz e São Gonçalo do Amarante, encomendando os serviços das melhores mães de santo. Correu atrás de uma pomada na Cochinchina, que foi encontrar no cais do Apolo, em Recife, das mãos de um chinês que vendia para o mesmo efeito chás e aromas de Hong Kong. Valeu-se da crença, em voga na época, de que alguns produtos da Ásia eram afrodisíacos. Não houve recurso."


Demétrio Diniz  -   "Um Velho e Simples Amor"  - Conto       (post em 7/7/14)

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"Um cego leva mais tempo para envelhecer, talvez porque ressente a falta de referência do espelho, das fotos. Justamente eles lhe escapam como referência, mais imediata e constante, da passagem dos anos, e isso conta, deve contar no envelhecer que, em parte, vem de fora também, infiltra-se como a água num telhado que recebe e acumula a chuva do tempo riscando espelhos de umidade onde vemos as rugas que surpreendemos nos rostos mudados, sutilmente, nas fotografias sem retoques, nas imagens do tempo como dobras aumentadas no queixo, como rugas apertadas em torno dos olhos que tentam sorrir para uma máquina indiferente. As imagens são francas como certas pessoas sem tato, "ajudam" a flagrar nossa queda, não se trata de simples vaidade que registra uma mínima diferença, etc, mas da constatação, surpresa, do borrador dos anos eliminando a juventude até pôr um rosto no lugar do outro"

Fernando Monteiro - "O Livro de Corintha" - Romance vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura      (Post em 4/7/14).Literatura





"A mulher, que teria desatado no choro e implorado sacramento, dizem que desse dia em diante perdeu o juízo e nunca mais se recuperou. Verdade seja dita, jogara o filho no açude para esconder o opróbrio de uma gravidez indesejada. Sequer cogitara em levar a criança para a roda dos enjeitados. Roída de remorso, a criatura acabou doando todos os seus bens para a Casa de Caridade, a mesma que lhe oferecera pouso e asilo. Todos os dias beatas e voluntárias a procuravam, mas ela preferiu ficar vagando pelas ruas, dormindo ao relento, até que apanhou um tísica e morreu agarrada pelas paredes, vomitando sangue e impropérios contra quem se aproximasse com espírito de comiseração."




Aldo Lopes de Araujo  - "O Coronel e a Bailarina", Romance a ser lançado em breve                                                        (post. em 1/7/14)
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"A gigantesca carga de silêncio e morte que já não se agita, jacente por baixo das coisas, onda paralisada de silêncio exercendo seu campo de gravidade e dragando ruídos em volta, esperando um momento como aquele em que até mesmo o insuportável barulho feito por crianças diante do inferno de truques com que são diariamente confrontadas, aquele simples resfolegar de caldeirões na cozinha, um murmurante caso de assuntos proibidos, ou o eterno deblaterar das apostas humanas, tudo se calasse, enfim."

Alberto Lacet, inédito                                         Post. em 28/06/14

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"Contou que Monica era filha de ciganos, tendo ela descoberto seus poderes premonitórios ao pedir aos pais para desistirem de uma viagem. Na noite anterior sonhara com muito sangue e morte no vagão da segunda classe. A família ia apreciar pela décima vez os afrescos azuis do monastério de Veronet, na Bucovina. Desde pequena os pais incutiram-lhe o gosto - que depois virou obsessão - pela arte religiosa. O trem descarrilhou, e com apenas dez anos de idade se viu sozinha no mundo, tendo de suportar o frio severo do inverno e os caldos de aveia nos orfanatos do governo. Escapou, entre milhares de crianças mortas por causa da fome e do frio."

Demétrio Diniz  -   "Estória de Mônica"  - Conto       (post em 25/06/14)
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            "As tarefas das mulheres incluem água e fogo, buscar uma e acender o outro, descascar milho e debulhar grãos, lavar e costurar roupa, sujar as mãos de merda verde e vômito azedo no meio das atividades da cozinha que, às vezes, queimam os dedos sujos da porcaria que, espera-se, as mulheres varram, limpem, expurguem da visão dos outros, primeiro. Ainda há de ser escrito um livro que chore por elas como um sino na lonjura"



  Fernando Monteiro - "O Livro de Corintha" - Romance vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura          (Post em 22/06/14).

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"O caminhão parou debaixo da palmeira imperial e o chofer desceu e ficou contemplando a sombra da copa enfolhada que acabava de escalar o fronstispício da casa do coronel. Ele espiava para cima como se não fizesse caso da gravidade de sua obrigação, que era dirigir aquele carro, o carro da má notícia, uma espécie de rabecão, veículo funerário que o governo de Perdição mandara adaptar para os infortúnios da guerra. As mães de família tinham horror àquele caminhão. Todo mundo se benzia quando escutava o motor do desgraçado rangendo e bufando para subir a ladeira da Lacraia, transportando boa coisa é que não era. As mulheres espichavam os véus, tentando esconder o rosto, e se afastavam depressa, enquanto os homens discretamente embicavam seus chapéus."


Aldo Lopes de Araujo  - "O Coronel e a Bailarina", Romance a ser lançado em breve                                                        (post. em 19/6/14- 11:18)

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"Disse que  o advogado havia chegado dessa vez com um paletó ligeiramente curto nas mangas, o figurino menor apontava para alguma herança de fundo de baú, salientando os dedos excessivamente compridos e aquela palma da mão, branca, disse. Também estava de cabelo quase raspado, lembrou, um uso só adotado recentemente, e que evitava aquele topete frequentemente desgovernado em cima da testa. Escondidos, uns garotos se tinham postado ao pé das grades da janela para escutar o que se passava entre o advogado e o preso, disse, Era preciso ver como um homem chora e pede perdão, garantiu ele, Quem manda  fazer o que fez, comentou a tia Pitá."





"Abandonada, Alzira perdeu a força. A idade também contribuiu para a queda. Devia estar perto dos cinquenta anos. No bar, ou mesmo na rua, na padaria, no açougue, os homens já não olhavam inviesados para o seu corpo. Falavam com ela de forma complacente, como se tratam os velhos.  Sem homem, a tia não era ninguém."

              Demétrio Diniz -  "Tia Alzira", conto  (Post em 13/06/14)

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"O luto pela morte do cigano estava no coração de Epaminondas, que espiava para os lados do largo da Moça Branca e via a bandeira preta no alto do mastro do circo dando lapadas no vento. Acabara de perder a figura de proa dessa grande canoa de lona, molambos e ilusões. Ele ficou olhando, até que o pequeno séquito acabou engolido pelas sombras dos pés de avelós ao longo do corredor."






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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

2 fotos



                                                O artista no ateliê pintando "The Bismark's family"




                                                     "Hombre y su tigre" 70x60cm, o/s/t

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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Visualizando algumas etapas da pintura "Santa Ceia"


                                                     "Santa Ceia", 160x140cm, o/s/t