sábado, 7 de junho de 2014

DROPS DE LETRAS






"Alba pelayo de Céspedes nascera conservadora em arte e avançada em política, uma menina tão festejada, ao chegar, na grande mansão da Via del Corso,em 1911, que a casa esteve acesa, por uma semana inteira, no coração da Via Flamínia, para festejar a vinda da filha de um diplomata cubano cuja família era toda de políticos, presidentes da ilha, gente de linhagem e poder no Caribe, piratas modernos, tudo o faz crer, nada que importe para quem lê, verdadeiramente lê (ler é  posterior e mais refinado que escrever) um livro que é como todos os livros: uma ilha de solidão suspensa da armadilha de solidão da vida.  A literatura precisa ser delicada como a imaginação do leitor: Um professor de Cornell, numa tarde de maio, já perguntou- à meia dúzia de alunos de sua classe - como funcionaria a mente de um leitor sombrio que penetrasse nas praças de algum livro ensolarado (e a resposta não foi tão satisfatória quanto ele esperava)."

Fernando Monteiro - "O Livro de Corintha" - Romance vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura          (Post em 25/8/14).
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''Ele não esperou qualquer pergunta, foi gritando para quem estava no carro, Paulo Rossi fez o terceiro, o Brasil está fora da Copa, espantado, talvez com descobrir-se subitamente de utilidade pública, desempenhando-se bem, e à vontade, na inesperada responsabilidade cívica de passar adiante uma desgraça, complementando informações com a mais urgente e necessária rapidez que um pequeno estafeta feito ele precisa imprimir aos dados de uma hecatombe. Alardeava que alguém tinha perdido a bola na entrada da área, disse, que o tal Rossi fizera os três. Praguejou contra alguém como se tomado de puro ódio, e quando esvaziou o pequeno estoque de notícias, ficou calado, como se acabado de engolir um sapo (feito os antigos guias mirins do patrimônio histórico de Olinda, depois que esvaziavam seu repertório), enquanto com aqueles grandes olhos continuou a inquirir esse do carro, esperando talvez surpreender, nesse, algum vestígio dos efeitos que a notícia provocara, mas viu apenas aquele braço sair do carro e esticar-se em sua direção. O garoto viu a mão e aqueles dois dedos compridos, com a cédula saindo do meio deles, dobrada  feito um dardo."


Alberto Lacet - Romance de ficção - inédito - a ser lançado em breve - Post em 19/8/14
                                                                                                     



"O desmantelo ou, melhor dizendo, a queda, começou quando Alzira, minha tia, se botou de namoro com um militar e, para escândalo da família, largou o marido. Era casada com o vaqueiro Hermínio, que na velhice, só por vaidade, ainda vestia o gibão de couro, embora já não contasse com força para derrubar nem mesmo um bezerro. Apesar de Hermínio ter uns trinta anos a menos que minha tia, do casamento nasceram dez filhos, sem falar nos cinco abortos. Alguns dos filhos ela prometeu dar a parentes antes do nascimento. Ao entregar o bebê, dizia chorando que fazia isso para cumprir com a palavra. Pedia apenas tivesse o nome na letra J, como os demais filhos, não escapando dessa consoante nem mesmo Jenival e Jerusa, assim registrados contra a vontade do escrivão, que insistiu na letra G."

Demétrio Diniz  -   "Tia Alzira"  - Conto       (post em 16/8/14)
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"Corintha gosta de ler, sempre gostou, suas mãos não machucam livros forçados para trás, fletidos nas lombadas - onde se encolhe um título, entre as duas metades flexíveis, os cadernos de páginas costuradas obrigados a dobrarem-se como as folhas coloridas de uma gorda revista que resiste (embora um livro não seja uma revista), tudo no ato de ler a excita (sempre excitou). No limite da atenção, ela se permite gozar, obliquamente, do que lê, e bem, de saber-se lendo, principalmente nos dias de chuva, quando as páginas podem estar cheias de um sol longínquo de papel que não queima e não está úmido, mas porta os signos da claridade artificial da leitura, seu tempo, sua duração fora da duração das coisas, sua suspensão sob uma lâmpada (não sob o sol real, para ela), na intimidade que a chuva do livro perfura quando entra o inverno inventado de algum capítulo que pula o tempo obtuso das estações, assim como versos montam e remontam uma realidade paralela de imagens permitidas para tudo, associações estranhas, metáforas desconexas que mergulham a leitura nos sentidos subcutâneos das palavras que os olhos acompanham nas páginas marcadas por um talhe, uma ponta de unha (Corintha não gosta de anotar, de escrever em livros), quando ela passa a página já lida."

Fernando Monteiro - "O Livro de Corintha" - Romance vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura          (Post em 11/8/14).
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"No correr de quase quarenta anos Maria do Livramento sofreu em silêncio sem jamais dividir o seu segredo com ninguém.  No dia em que deixou o quilombo, a negrinha orfã fez cara de choro, mas mesmo assim o tio a jogou dentro dos caixotes de frutas entre os ananás, bananas, jacas e abacates ofertados ao vigário. Ela não deu um pio durante a viagem, suportou a pisada dura do burro, a cangalha vira não vira, o caçuá áspero e o leite das jacas grudando em seu corpo. A carga foi despejada no fundo da despensa  e Livramento somente foi encontrada três dias depois pelas marianas que faziam a limpeza. A partir de então o padre dispensou a ajuda das beatas, e a menina tomou conta do baque da casa, uma meia água pobre que ficava a três quarteirões da matriz. E foi indo e cresceu e botou corpo, e todo mundo achando estranho aquela convivência, aquela menina se pondo moça e mesmo assim socada na casa do padre, o mesmo padre do retrato que agora Livramento olha embevecida, um quadro acima do oratório, oval, onde ele aparece em sua pose clássica: o ar de serenidade e a mão no peito, entre um botão e outro da batina.  A vela acesa saracoteia com a luz, e aquele efeito ótico de chama reproduz o ar severo e alucinado que tanto assombro lhe causara no dia em que ele resolveu por sua conta e risco desaparecer de perdição.''


Aldo Lopes de Araujo  - "O Coronel e a Bailarina", Romance a ter seu primeiro lançamento marcado para o próximo dia 07/08/14, às 19: hs, na Livraria Saraiva, do Shopping MidWay, Natal-RN                                                   (post. em 06/7/14- 11:18)

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''Foi instruído a que procurasse um Teofre. Agenor lembrava-se dele. E embora não tivesse qualquer aproximação com esse tal, sabia de seu predicado humilde. Tratava-se de um dos três homens presentes àquela mercearia. Da vez em que  estivera lá. Esse Teofre fora o que se tinha retirado antes. De esguelha, um menino deu uma rápida conferida na posição do sol e disse saber onde ele podia ser encontrado, àquela hora, e se foi apressado, de posse do recado.''

Alberto Lacet   -     Inédito  - Romance-   (post em 4 /8/14) 
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"Aguardou o táxi espiando a rua vazia naquela tarde de sábado. Perto dali o Holiday subia em direção às nuvens, com centenas de quitinetes. Constrangeu-se ao imaginar os seus moradores - prostitutas e gigolôs, traficantes e viciados - pessoas infelizes como ele, lambretinha solitário, rodando pelas vielas atrás de sexo. E temeu pela velhice, que dava os primeiros acenos, ao ver na esquina uma velhinha atravessando o sinal, a sombrinha aberta e titubeante ao sol da praia de Boa Viagem."


Demétrio Diniz  -   "Caso de Polícia"  - Conto       (post em 1/8/14)
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"Lui cujo silêncio é diferente do silêncio anterior e Lui cujas palavras, acima de tudo, não se parecem com as do Lui que lia, até há pouco tempo, sobre as civilizações mortas, o Lui da nova roupa que a musa da semana lhe comprou. Agora é uma mulher madura, de joelhos ossudos e cabelo pintado de ouro velho, a "Colombiana". Ele mesmo disse que ela foi prostituta em Tolima e Bogotá, depois de trabalhar como cozinheira na casa de Dom Luis Vidales - o velho poeta preso e torturado por ordem de Camacho Leyva (general que matou metade do contingente do M-19 no sul da Colômbia), autor espartano da resenha mais curta da história da literatura: "Aqui não há poeta que preste".



Fernando Monteiro - "O Livro de Corintha" - Romance vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura          (Post em 29/07/14).


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

2 fotos



                                                O artista no ateliê pintando "The Bismark's family"




                                                     "Hombre y su tigre" 70x60cm, o/s/t

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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Visualizando algumas etapas da pintura "Santa Ceia"


                                                     "Santa Ceia", 160x140cm, o/s/t