domingo, 16 de março de 2014

DROPS DE LETRAS

 "(...)  O vento que assobiava em seus ouvidos era o mesmo que fustigava o maciço de Teixeira, de onde o pico do Jabre emergia como se quisesse escorar o céu. Heliodoro jamais imaginou tocar-lhe as encostas a ponto de colher lírios naquele monastério de pedras. Em suas crises de lua, muitas vezes subiu a ladeira da Lacraia para desimpedir as vistas e os vexames da cabeça. Após as trovoadas, quando as chuvas apagam a fumaceira das brocas, ele via o alinhavo de pontos altos e baixos quase imperceptíveis na linha do horizonte, este arame velho da Providência Divina que jamais careceu de esticador. Na sua imaginação incendiada, o pico do Jabre é o sítio onde os gigantes do tempo antigo começaram a construir uma torre com o propósito de alcançar o céu, mas por motivos desconhecidos tiveram de abandonar a construção. A prova disso é a abundância de material depositado em toda a extensão da Serra de Teixeira, pedras atiradas nas encostas de terra e cascalho, o que sobrou da erosão, das voçorocas antediluvianas. A impressão que se tem é que os gigantes deixaram o material ao pé da obra, esperando voltar depois para continuar a torre e chegar enfim aonde pretendiam chegar. Ao que tudo indica vão tocar a construção, e dessa vez não precisarão transportar tabuleiros de Emas e Malta, raspar as serras de Santa Luzia, muito menos arrancar os serrotes de granito das Espinharas. (...)" 

                          Aldo Lopes de Araujo - "A Bailarina e o Coronel", Romance, a ser lancado em maio desse ano, pela Editora Bagaco 

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"(...) Já o sol invasivo a lamber-lhe os sapatos, os bicos evanescendo-se na luz, a seguir pisando na calçada e fugindo daquele alçapão de sombra ardilosa em que viera cair, talvez no único momento concebido até então em sua vida para que nada daquilo tivesse menor chance de fazer sentido, mas avançando para ganhar aquele mundo gratuito de luz dura, calor e revérbero à frente, quando ela então se virou de lado, para lhe dar a passagem, fitando-o, porém, nos olhos, vendo-os como que cegados por vidro, sem cumprimenta-la, atravessando depois a rua para subir no canteiro, e ela, Ondina, idade de ser sua mãe, punhos quebrados nos quadris, dedos das mãos estirados por força, vendo-o agora pelas costas, olhando alternadamente para ele e para o interior de onde saíra, meio que assustada, “Mas que bicho o mordeu"". (...)”.

                                         A. Lacet -inedito
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 "(...) Algum tempo depois, meu amigo Nazareno, que aos 

domingos aparecia lá por casa, a viu na Madalena, trabalhando  no 

açougue do novo marido, tal e qual Jorge, feio e bruto. Em outro 

encontro, no ponto do ônibus, disse-lhe que vinha conformada com 

a vida, amor mesmo ficou para trás, muito longe em Barretos, com 

um peão de rodeio. Êh Aline! — exclamou, aparentando desânimo. 

Na época adoeceu de paixão, chegou a ler A Verdadeira Cruz de 

Caravaca, procurando entre os remédios para vários males um que 

curasse os exageros do amor; os versinhos que invocavam anjos na 

língua do Congo, contudo, não lhe trouxeram a paz de um amor 

tranquilo. Da vida atual queixou-se das vezes que o marido lhe 

batia, geralmente quando a fiscalização dava as caras, multava o 

açougue e abria um processo. A última vez — confidenciou — 

apanhou dentro do próprio açougue, e por um triz ele não a 

dependurou de cabeça para baixo no gancho dos porcos, depois de 

rasgar sua roupa. Queria deixá-la pelada no frigorífico, sendo salva 

pelos rogos e a jura de nunca mais se intrometer nos negócios do 

marido. (...)"  


                                                    Demétrio Diniz- "Aline" - conto inédito

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... a presença de todos se misturava aos burilados e ornamentados caixões estilo rococó, folheados em imbuia e festoados com folhas de acanto. E ninguém, nenhum dos presentes, parecia perceber a necrológica estética em exposição. Apenas eu, enquanto passava, observava a implacável e indiferente susceptibilidade de coisas: flores, cores, dores e nomes; sensações imprecisas de formas passageiras, incólumes registros da alma. Instantes depois, entrei no cemitério.(...)"
                                   David Barbosa- conto inédito
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"...Zonzo de raiva e uísque o diácono não vê o menino franzino, quase imperceptível na rua mal iluminada. Toma um susto quando um objeto voa por cima do carro como um morcego grande, e suja de sangue o para-brisa. Pareceu mesmo um voo de morcego, rasante de cima para baixo, o som fofo de um invertebrado ao se esborrachar no chão, uma plastada de pele e sangue na pista. O cantor e diácono pisa fundo no acelerador. Vai para os lados de Nova Parnamirim, zanza pelo bairro mais de uma hora, até que por fim se acalma. Freia o carro, põe outro tablete de goma na boca, e pergunta à mulher dos dentes para fora o que desde o início da noite queria perguntar: Onde é mesmo que vamos romper o ano?"
  
            Demétrio Diniz -inédito ( trecho do conto "Onde é mesmo que vamos romper o ano?")

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“.. com toda aquela tribo que teria vindo junta na compra que ele, 

Dr. Antonio Lavareda, fez à antiga família Montenegro ou 

Vasconcelos, coisa assim, um dia enfronhada em brasões e 

paramentos pela Freguesia de Santa Maria Madalena, vá ver que 

metida nas liteiras, como as Dantas, e amiga que fora de 

bispos e cônegos, alferes e intendentes, essa gente hoje tão distante 

incapaz de causar qualquer assombro, com alguma inscrição 

ainda visível em lápides do populoso cemitério, espremida ali como 

na última concessão da intendência, e ali se mantendo mais 

apertada que cu de sapo, embora sem a menor necessidade de 

disputar espaço com a gente do povo, comum, essa que se vai 

acabando de doenças e mortes matadas, e concorrendo apenas com 

os seus, pelas covas rasas, apesar de nunca terem se visto no meio 

de guerra, e nela saqueados com a invasão de suas terras 

casas, como aquele povo tão antigo, como disse Adauto 

D’Chiquinha, sobrinho neto de Pitá, a velha. (...)”

                                       Alberto Lacet (romance em andamento)

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"...“Ainda hoje vô Amaro fala nesse homem”, reforçou Chico Castigo.


           Dega fez um esgar.


           “Besta acredita em tudo”       


          Surgiu uma menina, tinha uma caderneta na mão e estendeu-a sobre o balcão, mais alto que ela.


          “Um pacote Maizena”


           “Tem não”


            Dega ficou olhando de soslaio a menina recolher a caderneta e afastar-se, de cabeça baixa. O movimento na mercearia, que vinha fraco, caíra a quase nada nos últimos dias..."
       ..."
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"... Daí a pouco, Didi do Bar encontrava-se lá dentro, tinha acabado de desligar o fogo e estava agora colocando as codornas no prato, debaixo de todo aquele cheiro de fumaça gordurosa inflamando o ar, quando o menino trouxe o cigarro. 


           “Vai levar na mesa, Danda”, mandou...'





"...



“E amanhã?”


Era sempre assim, nos últimos dias do mês, antes do pagamento, a conta do pão caía até por mais da metade. Os fregueses iam encolhendo os gastos para evitar o excesso de dias no bolso. Economizavam somente para ter de comer menos, mas depois do pagamento o nível de consumo voltava ao padrão de um mês antes, e normalmente em dia de pagamento, como aquele, Dega já diria a Menino Francisco que dobrasse a medida para o dia seguinte, acrescida de uma variedade de bolachas. Mas agora, com aquilo acontecendo, não ia arriscar.


“O mesmo de hoje”, respondeu.
..."





"... Dentro da Mercearia, os três homens bebericam a intervalos espaçados, fumando nesse tempo. Escutaram o barulho do ônibus chegando, e saindo, depois de rápido momento, sem nada comentar, nem se dispor a dar uma olhada, embora Dega Veíno, pesando açúcar por trás do balcão, tivesse ângulo suficiente para ver na direção da parada. Isso que fez. Apertou ligeiramente as pálpebras, filtrando um pouco daquela claridade lá fora. ..."


"... Alguma coisa o alertou e fez que parasse de cortar a sola. Tinha soltado a faquinha no copo e estendido as costas para o apoio da parede, atento, quando já então Teofre, sentado no banquinho com tampo de tiras de borracha, indicado por ele, dizia.

“O irmão dele é casado com tia Dora, cê sabe”                    
“Sei” ,

“Então me pediu que lhe falasse. A filha dele não é mais moça, cê sabe”
“Sei não. É?”





..."





          




























         















quinta-feira, 5 de setembro de 2013

2 fotos



                                                O artista no ateliê pintando "The Bismark's family"




                                                     "Hombre y su tigre" 70x60cm, o/s/t

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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Visualizando algumas etapas da pintura "Santa Ceia"


                                                     "Santa Ceia", 160x140cm, o/s/t




quinta-feira, 1 de agosto de 2013


                                           Retrato de Zé Ramalho, 240cmX120cm, o/s/t


 
"Mulher Reclinada", 100x70cm, o/s/t